A multiplicação dos banqueiros (os sócios das cooperativas de crédito)

A multiplicação dos banqueiros
As cooperativas de crédito se fortalecem no Brasil com um processo de fusões inspirado em países onde boa parte da intermediação financeira já circula entre grupos de pessoas que operam com seu próprio banco
Elas são pequenas, ainda. Sua fatia na movimentação financeira do país não passa de 2% . Em 2008, mais da metade das operações que realizaram envolveu valores abaixo de R$ 3 mil. Mesmo assim, as quase 1,5 mil cooperativas de crédito que se estruturaram no interior do país e aos poucos vão cercando os grandes cidades protagonizam um dos fenômenos mais interessantes do mercado financeiro: o surgimento de uma multidão de brasileiros que tem, digamos, um banco para chamar de seu.
Em números redondos, está-se falando de 4,2 milhões de brasileiros que se tornaram associados de uma cooperativa de crédito. Mais impressionante que o número, porém, é a tendência que aponta. Afinal, praticamente dois terços dessa legião ingressou no cooperativismo de crédito de 2002 para cá.
"Percebe-se que o crédito via cooperativas tem crescido de forma acentuada já há algum tempo", diz o economista Alex Agostini, da Austin Rating. Uma alavanca natural é o boom do agronegócio brasileiro, origem e base do cooperativismo de crédito. Mas, em parte, pondera Agostini, esse crescimento também se deve ao fato de que as cooperativas, dispensadas de alguns tributos federais, oferecem financiamentos e serviços a custos mais baixos que os bancos. Um estudo da Organização das Cooperativas do Brasil (OCB) ao final do ano passado sustenta que, em média, as taxas das cooperativas de crédito em 2008 ficaram bem abaixo das praticadas por bancos e financeiras em operações como empréstimo pessoal (diferença de 59%), cheque especial (18%), cartão de crédito (43%), capital de giro (48%) e desconto de recebíveis (46%).
Um outro atrativo das cooperativas é o de exigir menos garantias no momento de liberar o crédito. Natural: fica difícil dizer não para um cliente que é, ao mesmo tempo, dono. "O papel da cooperativa é ter o dinheiro na hora certa, na hora em que o associado mais precisa", proclama o presidente da Sicredi União, de Maringá, Wellington Ferreira. No segundo semestre de 2008, enquanto a maioria dos bancos fechava a torneira do crédito para fugir do risco, as cooperativas aproveitaram para avançar. Em dezembro, na comparação com junho, haviam emprestado 18,6% a mais. E sem riscos maiores. No final do ano, a inadimplência superior a 180 dias não excedia 1,83%.
Determinadas a ampliar de 2% para 10% sua participação no sistema financeiro do país, as cooperativas de crédito sabem que precisarão turbinar seus músculos. "Uma
cooperativa precisa ter um tamanho a partir do qual possa alavancar recursos e atender bem seu associado", sustenta Orlando Müller, presidente da central que congrega as coooperativas do sistema Sicredi no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. "O caminho natural é o das fusões. Presidente do Banco SICREDI S.A., o banco do sistema Sicredi, Ademar Shardong calcula que, das quase 1,5 mil cooperativas de crédito no Brasil, restarão cerca de mil ao cabo de um processo de fusões que se intensificará nos próximos cinco anos. "Oferecer produtos e serviços financeiros exige altos investimentos em tecnologia, em processos, em logística. Há uma escala mínima que uma cooperativa precisa atingir para operar", afirma Schardong. Nos seus cálculos, com menos de 15 mil associados uma cooperativa está abaixo da escala mínima. É a situação, hoje, de um terço das cooperativas de crédito de livre admissão.
O exemplo mais notável dessa tendência é a criação da Sicredi União, em Maringá, no início de julho. Resultante da fusão de três cooperativas da região, a Sicredi União exibe 34,6 mil associados em 57 municípios e administra ativos no valor de R$ 500 milhões. Maior sistema de cooperativas de crédito do país (veja quadro a seguir), o Sicoob seguirá pelo mesmo caminho das fusões e incorporações, a partir do planejamento estratégico elaborado recentemente. "É perceptível o interesse de todos os sistemas em estruturas centralizadas de administração, a ampliação de pontos de atendimento aos cooperados, e é exatamente isso que ocorre quando cooperativas resolvem se unir", apregoa José Salvino de Menezes, presidente do Sicoob.
Menos - e maiores - cooperativas, e multiplicação dos pontos de atendimentos cooperativos (PACs), é a grande tendência que o país importa de países em que o cooperativismo de crédito adquiriu maior peso no sistema financeiro, como França (fatia 60%) e Alemanha (20%). "Na Alemanha, chegou a haver 12 mil cooperativas de crédito. Hoje, elas são cerca de 1,2 mil, apenas", aponta o especialista em mercados Silvio Giusti, da Organização das Cooperativas Brasileiras.
É o que já vem acontecendo no Brasil. O número de cooperativas de crédito se manteve nos últimos cinco anos, apesar da multiplicação de associados, e agora deve cair. "No entanto, os postos de atendimento cooperativo, que são estruturas muito enxutas, se multiplicam a uma velocidade impressionante", detecta Giusti. O número de postos dobrou, para 2.729, desde 2001, e a cada dia útil um novo posto surge no Brasil. "O sistema vem crescendo e quando representar mais de 5% ou 6% da intermediação financeira veremos as cooperativas influindo de modo mais determinante na redução do custo do dinheiro no Brasil", anima-se Giusti.

O CACIFE DAS TRÊS REDES
Siscoob é o número 1 - e também o mais sujeito à tendência de fusões
Número de cooperativas: Sicoob – 633, Sicredi – 130 e Unicred - 124
Postos de atendimento: Sicoob - 1.144, Sicredi - 1.076 e Unicred - 397
Número de associados: Sicoob - 1.715.295, Sicredi - 1.438.208 e Unicred - 181.229
Depósitos: Sicoob - R$ 7,1 bilhões, Sicredi - R$ 6,3 bilhões e Unicred - R$ 3,2 bilhões
Operações de crédito: Sicoob - R$ 9,0 bilhões, Sicredi - R$ 8,1 bilhões e Unicred - R$ 2,5 bilhões
Ativos: Sicoob - R$ 14,9 bilhões, Sicredi - R$ 11,1 bilhões e Unicred - R$ 4,6 bilhões
"Crescer não significa desvio de índole" - Entusiasta do papel que as cooperativas podem assumir na redução do custo do dinheiro no país, o consultor do Departamento de Organização do Sistema Financeiro do Banco Central, Abelardo Duarte de Melo Sobrinho, defende as fusões "preventivas" - isto é, aquelas que unem instituições saudáveis. E fulmina o receio, ainda latente em setores do cooperativismo, de que o crescimento pode trazer problemas. "Ninguém consegue competir com sua própria fraqueza", adverte.
A fusão de cooperativas de crédito no Brasil é uma tendência? - Observa-se tendência crescente entre janeiro de 2008 e junho de 2009, com média de duas incorporações por mês, contra menos de uma entre 2003 e 2007. Ainda assim, são movimentos tímidos e na maioria das vezes decorrentes de solução de última instância para dificuldades que atingiram níveis insuportáveis. Claro que a capacidade de reação é salutar, já que resolve problemas que, de alguma forma, poderiam comprometer a marca cooperativa. Entretanto, de maior relevância, é o processo de incorporações preventivas de forma a evitar riscos de continuidade e o aprofundamento de problemas que, em momentos futuros, podem mesmo inviabilizar soluções.
Quais as vantagens desse processo de consolidação? - Uma das principais é o ganho de competitividade. Em ambiente de juros declinantes, como é desejo de toda sociedade, é imperioso cortar custos, sem que isto signifique risco de continuidade. Vejamos um exemplo singelo: uma empresa não consegue mais colocar seu produto com margem suficiente para equilibrar, no mínimo, seus custos de funcionamento. Ou corta esses custos, de forma a reduzir a margem financeira, ou terá de colocar a inútil placa na porta: "Precisa-se de clientes". Só que há limite para esses cortes, sob pena de não atender à estrutura mínima ideal e, portanto, sucumbir. Nessa situação só há duas soluções: ou fecha as portas com placa e tudo ou então se junta com outros parceiros. Este é o princípio. A arte é fazer esses movimentos de forma preventiva, com visão de futuro que permita antecipar cenários. Todos ganham.
Há riscos? O sistema pode se afastar de algumas de suas raízes na relação com a comunidade, na medida em que dê origem a "mamutes", digamos, com a missão de enfrentar os bancos tradicionais? - A má notícia é que tudo na vida envolve risco. A boa é que tudo também depende de nosso comportamento. Há um desvio muito grande em imaginar que a descaracterização dos princípios cooperativistas seja consequência inevitável do enfrentamento do mercado. Devemos abolir esse sentimento de que crescimento é sinônimo de desvio da índole. Ninguém consegue competir com sua própria fraqueza. As cooperativas que se afastarem de seus propósitos serão julgadas pelos próprios associados e, em nível mais drástico, até mesmo pelo Estado. O desafio é fazer com que a cultura cooperativista seja algo contido mais na formação do que no discurso. E essa disseminação de cultura tem sido muito forte nos últimos tempos.
Das cerca de 1,5 mil cooperativas de crédito no Brasil, quantas devem restar, considerando-se a tendência de fusões no segmento? - A resposta seria premonição. Ideal é responder primeiro: "Qual o tamanho ideal do sistema cooperativista para o Brasil?". Alguns dados podem contribuir para essa reflexão. Hoje, cerca de 60% dos municípios brasileiros não possuem presença cooperativista, com destaque para as regiões Norte e Nordeste, onde há tantos espaços livres. Em contrapartida, as regiões Sudeste e Sul detêm 75% das cooperativas brasileiras. Ou seja: há ainda grande espaço a ser ocupado. O importante é discutir a forma. Creio que em muitas localidades esse atendimento possa ser feito mediante instalação de Postos de Atendimento Cooperativo -PACs -, como, aliás, tem sido tendência nos últimos dois anos. Em outras, no entanto, há necessidade de presença de sedes. Em suma: há espaço para enxugar o número de cooperativas em certas regiões e para aumentar em outras.
Fonte: Revista Amanhã
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